A automação no mercado de trabalho: 4 mitos desconstruídos


Paralelos ao endeusamento das tecnologias enquanto ferramentas futuristas de automação crescem, com uma força surpreendente, alguns mitos.

Já sabemos, por esta altura, que as tecnologias vão, sim, revolucionar a forma como trabalhamos, mas nem todos os milagres são reais nem todos os pesadelos são possíveis. Vamos, por isso, desconstruir quatro dos maiores mitos que circulam sobre a automação e o impacto que ela vai ter nos modelos de negócio, no mercado de trabalho e na empregabilidade.

4 grandes mitos sobre o impacto da automação no mercado de trabalho

 

  1. Há empregos que vão deixar de existir

Este é, provavelmente, o mito mais assustador associado aos processos de automação. Ele gera medo entre os colaboradores das empresas, que temem ser substituídos por um qualquer software de laboratório, e, em consequência, é um dos principais responsáveis pela resistência de muitas equipas à adoção de novos métodos de trabalho que integrem sistemas automatizados.

Na verdade, poucas serão as profissões totalmente substituídas pela tecnologia. O ser humano deixou há muito de se resumir à força braçal e mental – não é por acaso que, nas últimas décadas, se tornou não popular o conceito de “inteligência emocional” -, e vale agora muito mais no local de trabalho pela capacidade de empatia do que pela capacidade física ou até analítica.

Comprovando a teoria com números, um estudo recente da McKinsey concluiu que menos de 5% das profissões podem ser inteiramente automatizadas pelas tecnologias atualmente disponíveis. Ao mesmo tempo, os investigadores verificaram que cerca de 60% das profissões podiam automatizar pelo menos 30% das atividades habituais.

A tecnologia não vem, então roubar postos de trabalho, mas antes aliviar o peso de determinadas tarefas para que o trabalho – que continua a ser feito por humanos – se torne mais suportável e motivador.

 

  1. Vamos passar a ter “trabalho virtual”

A imagem de um robô que vai trabalhar por nós de manhã e nos deixa ficar em casa a aproveitar o tempo livre é pura ficção. Quando se fala em automação não se fala em deixar as máquinas assumirem o leme dos negócios, mas antes numa espécie de “trabalho aumentado”: um conceito em que as capacidades do ser humano são alargadas pela soma das capacidades tecnológicas.

Por muito perfeita que seja, a automação não passa disto mesmo: a automação de um processo por uma máquina. Inteligências à parte, as máquinas fazem o que lhes pedimos que façam – o que, só por si, já torna necessária a presença de um “mandante” humano -, excluindo da equação toda a parte humana do processo: as emoções, a empatia, o raciocínio alternativo.

Mesmo quando o assunto é inteligência artificial, repare que as máquinas aprendem matematicamente, ou seja, registam resultados e decidem com base em padrões. Ora, num mundo povoado por humanos o que menos há são padrões: haverá sempre um caso excecional, um sintoma nunca registado, uma subtileza no discurso que dá o input. Estes detalhes passam completamente ao lado das máquinas e é neles que se vê o verdadeiro valor das pessoas, que conseguem absorver vários tipos de mensagens óbvias ou subjetivas, em simultâneo e de forma contextualizada.

Num cenário mais prático, imagine uma sala de hospital onde os doentes urgentes são diagnosticados por um software. A tecnologia vai ser fantástica no diagnóstico das doenças mais comuns, mas o que acontece com os pacientes que trazem sintomas contraditórios, novos ou até inexistentes? O que acontece se uma grávida, sem saber que está grávida, se queixar de dores de barriga? Ou se um amputado se queixar de formigueiro no membro que não tem?

A automação não funciona sozinha e vai sempre precisar do complemento humano. Assim, o trabalho vai sempre ser combinado, o que obriga ao desenho de novos modelos de negócio e de produção e torna infrutíferas as intenções de por uma máquina a fazer o trabalho de uma pessoa sem a devida adaptação.

 

  1. Só os trabalhos menos qualificados podem ser automatizados

Este é outro dos grandes mitos da automação – tanto assim é que, não raras vezes, a realidade é precisamente oposta ao que diz o mito.

Nem precisamos de grande esforço para comprovar que o mito não tem fundamento: que software consegue substituir um jardineiro? E uma cuidadora informal de idosos? Um técnico de manutenção de edifícios?

Por outro lado, não faltam tarefas desempenhadas por colaboradores altamente qualificados que podiam muito bem ser automatizadas. Por exemplo, um CEO pode perfeitamente deixar a delegação de tarefas para um software de gestão. Pode deixar que a tecnologia analise relatórios e tome pré-decisões com base nos resultados. Um CFO pode delegar na tecnologia a análise das contas da empresa, assumindo apenas a função de planeamento estratégico.

A automação cabe em praticamente todos os níveis funcionais e, por isso, não deve ser olhada como a arma secreta dos C-Levels que ameaça a estabilidade dos trabalhadores não qualificados. Ela pode ajudar cada um nas tarefas habituais e aumentar a produtividade de todos, abrangendo as empresas na totalidade e democratizando a gestão dos processos de trabalho.

Contas feitas, se todos os colaboradores de uma empresa automatizarem 30% do trabalho e, com isso, reduzirem as horas dedicadas a ele, não é difícil perceber que o maior ganho até está nos níveis mais altos da hierarquia, onde o valor hora é mais alto. Por cada hora poupada ao CEO, a empresa poupa mais do que por várias horas poupadas a um operário. Dá que pensar, não dá?

 

  1. O trabalho vai ser todo igual

É outro grande mito da automação e vem precisamente da ideia generalizada de que as tecnologias vão criar um ambiente empresarial “a preto e branco”. Pois não podia ser uma afirmação mais errada.

As tecnologias, como já falámos, ajudam a analisar padrões e devolvem resultados contextualizados. A partir daqui, cabe aos humanos saberem o que fazer com a informação.

Queremos com isto dizer que é no lado humano de cada colaborador que vai ser definido o resultado final de cada tarefa: porque não há dois cérebros iguais, a mesma informação nas mãos de profissionais diferentes pode produzir efeitos e ter impactos radicalmente diferentes.

A automação de processos vai, sim, homogeneizar os processos iniciais de trabalho, mas é entre humanos que o valor de cada produto ou serviço é acrescentado. De forma mais simples, as máquinas vão homogeneizar a matéria-prima, mas são as pessoas que vão transformá-la em algo único e valioso para o negócio.

Se a sua empresa tem muitos (e bons) humanos, rejubile: já tem o mais difícil. O resto nasce em laboratório!

Photo by Rock’n Roll Monkey on Unsplash

Marta Figueiredo

Autor: Marta Figueiredo

Head of Operations @ Smarkio

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