As peças de que precisa para construir o Quociente Digital: uma perspetiva de RH


Depois do Quociente de Inteligência e do Quociente de Inteligência Emocional, o mundo gira agora em torno do Quociente Digital. Está familiarizado com o termo?

Não muito diferente dos termos que o antecederam, mas adaptado à nova realidade, o Quociente Digital mede a capacidade de um indivíduo ou de uma empresa de rapidamente se flexibilizar e adaptar à constante inovação tecnológica.

O conceito parece simples, mas não é fácil de pôr em prática, sobretudo se pensar que, em qualquer empresa, nada se faz sem a dedicação e colaboração de todos os que lá trabalham e a constroem mais um pouco todos os dias.

Do ponto de vista empresarial, construir (e manter) um Quociente Digital elevado é um trabalho contínuo e exigente. Numa perspetiva de gestão, implica manter o foco na digitalização e na adoção das tecnologias em favor do negócio; numa perspetiva de Recursos Humanos, implica construir uma equipa homogénea no interesse pela tecnologia e promover uma mudança de mentalidade entre os colaboradores que já integram os quadros.

Fácil de dizer, menos fácil de concretizar – mas não impossível. Tudo o que precisa é de um bom plano e de uma rigorosa execução; a partir daí, comece a trabalhar individualmente cada uma das peças essenciais para construir uma equipa verdadeiramente “digital”.

As peças de um bom Quociente Digital

1. Cultura empresarial

Mais do que ter colaboradores amantes das tecnologias, precisa ter colaboradores que conhecem, compreendem e se identificam com a cultura digital da empresa. Só vai conseguir que o negócio se comporte como nativo digital se as pessoas que empregar se sentirem, elas próprias, nativas digitais.

Colaboradores alinhados com a cultura digital da empresa vão planear, pensar, inovar, resolver e inventar com o foco fixo nas tecnologias. É essencial que a digitalização apareça no seu negócio como uma forma de ver o mundo, um estilo de trabalho e de pensamento, e não apenas uma obrigação ou uma “camada” que se põe por cima do raciocínio comum.

Como é que os RH contribuem?

Uma boa estratégia para construir uma equipa focada na digitalização é começar pelo topo da hierarquia: os gestores seniores da empresa promovem e participam na transformação digital? Se a resposta for negativa, é por aqui que começa o trabalho dos Recursos Humanos.

Também no âmbito dos RH, contudo, estão os colaboradores da base hierárquica. Neste setor já não falamos de liderança, pelo que não é necessária a iniciativa da transformação digital, mas falamos de comunicação e alinhamento: a empresa só vai passar por uma transformação digital se todos estiverem a par da estratégia que está em curso, e esse alinhamento depende muito das políticas de Recursos Humanos.

Uma grande ajuda a todo o processo – que também pode ser executada pelo departamento de RH – é a contratação de um Chief Digital Officer, que tende a assumir um poder de influência maior do que o da equipa de RH (mais não seja porque está inteiramente focado no objetivo da digitalização, ao passo que o os Recursos Humanos lidam com outras tarefas e missões em simultâneo).

Por fim, a cultura digital do negócio pode ser estimulada através de iniciativas internas. Ideathons e Hackathons são sempre boas opções de, informalmente, o departamento de Recursos Humanos sensibilizar as equipas para o pensamento digital.

2. Digitalização da marca

À primeira vista não é um conceito fácil de deduzir, mas chegamos lá rápido com um exercício básico: pense em marcas que, sem conhecer como funcionam organicamente, acredita que sejam profundamente digitais; agora pense em marcas que, não sabendo igualmente como funcionam, acredita que estejam atrasadas no processo de digitalização. Com certeza a sua cabeça trouxe diferentes nomes para cada exemplo, e esse é o resultado de uma melhor ou pior digitalização das marcas.

Marcas digitais são marcas que comunicam ao exterior que estão na vanguarda da transformação tecnológica. Repare que não falamos em negócios digitais; são coisas diferentes. A digitização da marca é a transmissão, através dela, dos valores digitais do negócio. E esse é um trabalho que, apesar de passar pelos Recursos Humanos, resulta melhor se tiver a ajuda do departamento de Marketing.

Como é que os RH contribuem?

O primeiro grande passo na contribuição dos RH para a digitalização da marca é a capacidade de chegar às gerações mais novas. Avalie as últimas contratações da sua empresa: que idade têm? Está a conseguir recrutar talentos jovens? Sendo os jovens os mais “nativamente digitais”, não faz sentido procurar a digitalização da sua marca sem que os Recursos Humanos falem a língua dos mais novos.

Outra forma de comunicar ao mundo que a sua empresa está na linha da frente da evolução digital é criar novos postos de trabalho ligados à digitalização. Abrir vagas para profissionais de data science ou data engineering dá a entender ao mercado que a sua empresa não ficou presa no século passado e está a adaptar-se ao novo mundo digital.

Finalmente os Recursos Humanos podem aproveitar as inovações internas para exibi-las ao mercado: premiar os colaboradores pela assunção responsável de riscos e pela adoção ou até criação de novos métodos de trabalho mais digitais é uma forma até de atrair novos talentos, dando-lhes a entender que serão tão mais recompensados quanto mais tecnologicamente pensarem.

3. Inovação de processos

A adoção de novas tecnologias para melhorar processos já existentes é um dos pontos mais conhecidos da transformação digital e não pode ficar de fora deste puzzle. A relação entre a inovação e o Quociente Digital é bastante simples: quanto mais digitizados forem os processos de uma empresa e mais confortável o negócio esteja com a adoção de novas tecnologias, maior é o Quociente Digital.

Como é que os RH contribuem?

Neste tema os RH assumem uma posição de influência algo semelhante à do Chief Digital Officer, mas mais nivelada com as bases da hierarquia e menos ao nível da liderança.

No fundo, o departamento de RH deve ser o exemplo a seguir. De nada serve querer que os colaboradores adotem uma filosofia digitizada se a própria empresa comunica com eles por carta, certo? Então o primeiro passo é trazer a tecnologia para os próprios processos de Recursos Humanos e usá-la como exemplo para motivar as restantes áreas da empresa.

O departamento de RH tem várias formas de começar a digitalizar processos, mas, para este caso, o mais aconselhado é que a digitalização comece por aqueles que têm impacto ou interação direta com a generalidade dos colaboradores: por exemplo, a comunicação interna, o sistema de sugestões, o registo de assiduidade ou a avaliação de desempenho.

A construção de um Quociente Digital depende de todos

Construir um Quociente Digital elevado é um trabalho longo e possível apenas se houver colaboração e alinhamento de toda a comunidade. O departamento de Recursos Humanos, enquanto elo de ligação entre os órgãos de gestão e os colaboradores – e enquanto responsável pelas novas contratações – é um aliado absolutamente indispensável para qualquer estratégia de digitalização.

Lembre-se que a digitalização é uma forma de olhar e de fazer o negócio, e que só sobrevive se existir, transversal a toda a empresa, uma verdadeira cultura digital. E para trabalhar a cultura empresarial, nada melhor do que começar a conduzir as novas contratações no sentido que o negócio quer tomar para construir uma comunidade capaz de correr atrás do mesmo objetivo.

Ainda assim, é importante perceber que, quanto mais armas tiver para esta luta, melhor. Se houver disponibilidade para, ao departamento de Recursos Humanos, juntar as competências do departamento de Marketing, toda a estratégia ganha mais força e alcança resultados melhores e mais rápidos. Quanto maior for o investimento, maior será o retorno.

Nuno Morais

Autor: Nuno Morais

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